Marcolino Moco

Marcolino Moco voltou a pronunciar-se sobre um vídeo seu de apoio à UNITA/FPU, gravado durante a campanha eleitoral de 2022 e que, segundo o antigo primeiro-ministro, voltou a circular nas redes sociais como se fosse uma declaração recente. Moco considera que a recuperação do vídeo faz parte de uma tentativa de construir determinadas aparências políticas sobre o futuro de Angola e sobre a ideia de que o MPLA continuaria a ser a única força política a actuar do “lado certo da História”.

O antigo primeiro-ministro entende que a divulgação do conteúdo, feita de forma que classifica como “nervosa” e intempestiva, não pode ser dissociada do ambiente político que antecede as próximas eleições. Para Moco, a circulação de imagens antigas procura criar uma narrativa sobre as suas posições políticas actuais, retirando o vídeo do contexto em que foi originalmente produzido.

Marcolino Moco explica apoio à UNITA/FPU em 2022

Marcolino Moco esclarece que o seu apoio à UNITA/FPU, durante as eleições de 2022, ocorreu na condição de cidadão independente. Segundo explica, não houve naquele momento adesão partidária nem qualquer intenção de conquistar um lugar na Assembleia Nacional ou assumir outro cargo político.

A decisão, segundo o próprio, esteve relacionada com a vontade de contribuir para uma mudança do modelo político e constitucional que considera prejudicial ao desenvolvimento do país.

Moco recorda que a UNITA/FPU, então liderada por Adalberto Costa Júnior, apresentava propostas que, na sua avaliação, poderiam representar uma alternativa ao sistema vigente.

Na sua leitura, porém, os resultados eleitorais de 2022 não permitiram concretizar essa mudança. O antigo governante volta a questionar a transparência do processo eleitoral e sustenta que houve factores que frustraram as expectativas de muitos cidadãos que pretendiam uma alteração na condução política do país.

A posição de Moco surge num contexto em que o debate sobre as próximas eleições e sobre a alternância política começa a ganhar maior espaço no discurso público angolano.

Vídeo antigo é apresentado como se fosse recente

Na sua reacção, Marcolino Moco chama atenção para o facto de o vídeo ter sido produzido há vários anos e, ainda assim, estar a ser apresentado novamente com destaque.

Para o antigo primeiro-ministro, caso a circulação tivesse partido apenas de sectores ligados à UNITA, poderia ser interpretada como uma estratégia de reaproveitamento de material político produzido durante a campanha de 2022.

No entanto, Moco considera que a forma como o vídeo está a ser difundido levanta outras questões. A divulgação, segundo ele, procura associar a sua imagem a uma determinada posição partidária e, simultaneamente, recuperar antigas acusações políticas.

O antigo governante também rejeita a ideia de que a sua relação com a UNITA possa ser tratada exclusivamente através de uma lógica de hostilidade política.

Moco recorda que a UNITA regressou ao sistema político oficial no contexto dos acordos de Bicesse, em 1991, e considera que esse percurso deve ser analisado à luz da história política recente de Angola, particularmente do processo de paz e reconciliação nacional.

“Traidor” e “kwacha”: Moco critica linguagem política

Um dos pontos mais fortes da reacção de Marcolino Moco está relacionado com a utilização de expressões e rótulos que, segundo ele, continuam a ser usados para desqualificar adversários políticos.

O antigo primeiro-ministro refere-se à manchete “Moco mostra, finalmente, a sua camisola Kwacha”, considerando que a expressão procura atingir dois objectivos políticos.

Por um lado, entende que a publicação recupera a velha acusação de “traidor”, frequentemente dirigida contra figuras que abandonaram ou se afastaram do MPLA. Por outro, considera que a utilização do termo “Kwacha” procura atribuir uma carga pejorativa a uma palavra historicamente associada à UNITA.

Para Moco, este tipo de linguagem contribui para manter divisões políticas que deveriam ser progressivamente ultrapassadas.

A crítica também se estende à forma como a história recente de Angola é transmitida às novas gerações. O antigo primeiro-ministro manifesta preocupação com aquilo que considera ser uma tentativa de recuperar antagonismos políticos do passado, sobretudo entre sectores mais jovens ligados ao MPLA.

Na sua perspectiva, a repetição de discursos baseados em antigos conflitos pode produzir novas reacções negativas e dificultar a consolidação de uma verdadeira cultura de reconciliação nacional.

O alerta sobre os “ódios antigos”

Moco considera que Angola não deveria continuar prisioneira das divisões políticas e ideológicas que marcaram décadas de conflito.

Ao recordar os “cansaços inúteis” provocados pelas disputas políticas do passado, o antigo primeiro-ministro deixa uma mensagem dirigida sobretudo às novas gerações.

Na sua avaliação, ideologias utilizadas para justificar exclusividades políticas acabaram por contribuir para o prolongamento de conflitos e para a divisão da sociedade angolana.

A preocupação ganha particular relevância num país cuja história foi marcada por uma longa guerra civil e por profundas fracturas políticas e sociais. Para Moco, a paz não deve limitar-se à ausência de guerra, mas precisa de ser acompanhada por uma mudança na forma como os cidadãos encaram as diferenças políticas.

O antigo governante defende, nesse sentido, uma abordagem em que a existência de diferentes partidos e correntes políticas seja encarada como parte normal da vida democrática.

“Para quando a verdadeira paz e o verdadeiro sentido da Pátria?”

A intervenção de Marcolino Moco termina com uma questão que ultrapassa a polémica em torno do vídeo.

“Para quando a verdadeira Paz e o verdadeiro sentido da palavra Pátria em Angola?”, questiona.

A pergunta coloca no centro do debate a necessidade de uma reconciliação que, para além das instituições e dos acordos políticos, alcance também a sociedade.

A polémica em torno do vídeo de 2022 acaba, assim, por transformar-se numa discussão mais ampla sobre memória política, democracia, reconciliação e liberdade de escolha.

Enquanto Angola se prepara para novos ciclos eleitorais, episódios como este mostram que as feridas do passado continuam presentes no debate público. A forma como os principais actores políticos e a sociedade lidarem com essas memórias poderá ser determinante para evitar que antigas divisões sejam utilizadas novamente como instrumentos de mobilização política.

Mais do que discutir a camisola de um partido ou a origem de um vídeo, Moco coloca uma questão essencial: que tipo de Angola os cidadãos querem construir e que significado deve ter a palavra Pátria num país onde diferentes opções políticas precisam de coexistir?

A resposta, como sugere o antigo primeiro-ministro, dependerá não apenas dos partidos políticos, mas também da capacidade dos angolanos de ultrapassarem os rótulos, os ressentimentos e as narrativas de exclusão que continuam a marcar o espaço público.

Fonte: Marcolino Moco

Redação: Desperta Angola

By Orlando Fonseca

A notícia que desperta Angola.

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